Segundo: mãe, este texto não é meu, é de um amigo meu.
Terceiro: Michele, este texto é em sua homenagem.
Sabe, Michele, naquele sábado, eu precisava comer alguém. Mas tava sem saco. Sem saco de ir nos mesmos lugares de sempre, escutar as mesmas menininhas de sempre falarem as mesmas bobagens de sempre ao ouvirem o meu mesmo xavequinho idiota de sempre. Sabe, Michele, o mundo lá fora exige todo um cerimonial. A gente não pode simplesmente dizer: “Oi, na sua casa ou na minha?” Não, tem que perguntar nome, fingir interesse, é super chato. E pior, Michele, depois de toda essa falsidade inicial, quando chega a hora de irmos para algum lugar, você tem que ver garotas que estão loucas para fuder, mas tiram a mão, dizem que não, tudo para mostrar que são meninas de respeito. Respeitam quem, Michele? Elas mesmas? Acho que não, né?
Foi por isso, Michele, que eu, já bêbado depois de ter tomado várias no bar, decidi que iria a um lugar onde as coisas realmente acontecem. E, lá dentro, o seu jeito sensual logo me chamou atenção. Na mesma hora pensei: é ela. Você acredita, Michele, que, com os dois minutos que eu gastei dando boa tarde para você e acertando o programa, em uma balada normal, com uma garota normal, nós ainda estaríamos no jogo de olhares? Parece piada né?
Mas com você foi diferente. Em dez minutos, já estávamos no quarto, pelados… Ah, Michele, outra coisa, quando eu disse que, para sair com você, eu pude pagar com cartão, meus amigos não acreditaram, sabia? Débito ou crédito? Na hora, nem eu acreditei. Você, hein? Sempre pensando em novos meios de agradar os seus clientes.
E lá no quarto, lembra? Foi engraçadíssimo. Eu muito loko de bêbida, meia-bomba, e você lá, na labuta, não descansou enquanto meu amigão não apontou o norte. Imagina só se outra garota teria paciência e maxilar para tanto. Claro que não. Primeiro, elas nunca teriam começado como você começou. Pega mau, ele pode achar que eu sou uma puta, pensariam. Mas você, que é mesmo uma puta e vive bem assim, começou, e fez um homem muito feliz. E depois, ah depois, você fez cada coisa… E só sossegou quando eu e ele, enfim, também estávamos sossegados.
Lembra que, logo em seguida, você ainda me perguntou: “E agora, você quer que eu fique longe ou posso deitar no seu peito”. Ah, que coisa linda, Michele, nunca uma mulher tinha me perguntado isso. Confesso que eu estava mais acostumado a, nessas horas, ouvir que a amanhã tem almoço na casa da avó, ou sobre o eu te amo que não foi convincente, ou que amanhã a gente tem que ir ao shopping sem falta para comprar um presente para a priminha da sobrinha da tia da avó de terceiro grau da sua afilhada. “O que? Mas como você não quer ir ao Shopping?”
Mas não, muito pelo contrário. O que eu ouvi foi a sua linda história de vida. A história da garota que, contra tudo e contra todos, deixou os pais no interior de algun estado do Brasil, para viver a realidade da Lapa de São Paulo. Michele, você é uma guerreira.
Eu estava lá, bobo, emocionado, com o seu relato, mas você nem deu bola, veio com tudo para cima novamente. Quando eu vi, já estava pronto para a segunda. Por alguns momentos, eu até me esqueci daquelas garotas que deitam na cama com a barriga pra cima e simplesmente ficam paradas, esperando que eu faça todo o trabalho sujo, como se fossem bebês esperando os pais trocarem as fraldas. Você não, Michele, você era um furacão, e conseguiu fazer a segunda ser ainda melhor que a primeira.
Olha, eu até perdôo umas mentirinhas que você me contou, tá? A começar pelo Michele, duvido que você realmente se chame assim. E a hora que você me chamava de pintudo… Ah, menos né, Michele, menos. E quando você me chamava de gostoso… Essa também vai, foi uma bela forçada de barra. Mas continuo te respeitando, sabia? Afinal, essa é a sua profissão, agradar o cliente faz parte.
Infelizmente, o programa chegou ao fim e eu fui embora. Lembra quando eu estava na porta do Privê? Você até me chamou para ficar mais e sentar, mas já tava tarde, eu não quis. Eu peguei seu telefone, demos um abraço, um beijinho na bochecha, e pronto, acabou. Fui embora apenas com uma tarde memorável de recordação.
Sabe, Michele, apesar da vontade, eu não te liguei. Nem no dia seguinte, nem na semana seguinte, nem nas seguintes. Passou muito tempo, e ainda não nos falamos. E você só me cobrou por isso uma vez, a vista e no cartão.
Numa ocasião normal, eu já seria, no mínimo, um grande filho de uma puta. Mas com você não foi uma ocasião normal, não é mesmo, Michele? Estamos de bem. E sabe o que vai acontecer se eu nunca mais te ligar? Nada. Isto não é fantástico?
PS: Mas se você ler esta carta e quiser fazer um novo programa comigo mande uma menssagem privada pelo fórum,porque hoje bateu uma saudadezinha de você.