Muito boa as manifestações sobre Cuba neste tópico, a parte política irei comentar adiante; continuo mostrando agora a música do país, que é belíssima. Um som caribenho contagiante diante do qual é impossível ficar indiferente. Não se pode morrer sem algum dia escutar a música cubana.
Comecemos pelo Buena Vista Social Club cantando Chan Chan:
http://www.youtube.com/watch?v=BoQNj2tl ... re=related
Agora, aquela que eu considero a principal música cubana:
GUANTANAMERA. Baseada na poesia de José Martí, herói da independência nacional perante os espanhóis, Guantanamera bem pode ser considerada a música nacional de Cuba:
Primeiro a letra, em tradução pesquisada na Internet. Guantanamera significa mulher de Guantánamo, uma província (estado) de Cuba:
Guantanamera,
Uma linda guantanamera,
Nos campos verdes,
És campo de primavera.
Eu sou um homem sincero,
De onde crescem as faunas,
Eu sou um homem sincero,
De onde crescem as faunas,
E antes de morrer espero,
Cantar em versos minha alma,
Guantanamera,
Ó linda guantanamera,
Nos campos verdes,
És campo de primavera,
Meu verso de verde claro,
Que sobre as cinzas da vida,
Meu verso de verde claro,
Que sobre as cinzas da vida,
Meu verso é um ser ferido,
Que busca no monte, amparo.
Guantanamera,
Ó linda guantanamera,
Nos campos verdes,
És campo de primavera,
Com os humildes da terra,
Vou minha sorte deixar,
Com os humildes da terra,
Vou minha sorte deixar,
Um fio d'água na serra,
me encanta mais que o mar.
Guantanamera,
Uma linda guantanamera,
Nos campos verdes,
És campo de primavera,
Guantanamera,
Ó linda guantanamera,
Nos campos verdes
És campo de primavera.
Cantada por Compay Segundo:
http://www.youtube.com/watch?v=bJ4NOXz3gjA
Agora, com Joseito Fernandez
http://www.youtube.com/watch?v=FYXLQT6Kdk8
*
Um dos maiores cantores cubanos é Pablo Milanés, sua música Yolanda rodou o mundo e certamente você já teve oportunidade de ouví-la nas rádios nacionais. Reveja aqui esta música interpretada pelo próprio cantor:
http://www.youtube.com/watch?v=SC_gEHnIobQ
*
Caetano Veloso imortalizou Che Guevara com sua
Soy loco por ti América. No Brasil, quando esta canção foi feita era a época dos festivais da década de sessenta, da agitação estudantil contra a ditadura militar. Hoje, Caetano Veloso pensa diferente, acredito que tenha amadurecido politicamente, mas recordar é viver:
http://www.youtube.com/watch?v=pCIS_EhnHLU
O poeta Ferreira Gullar escreveu
Dentro da noite veloz para comentar a morte do Che na Bolívia, uma poesia que tenta mostrar não só a forma como ele morreu, seus companheiros na empreitada e suas posições políticas. Para entender melhor, leia este especial feito pela BBC de Londres.
http://news.bbc.co.uk/hi/spanish/specia ... efault.stm
Agora, a belíssima poesia:
I
Na quebrada do Yuro
eram 13,30 horas
(em São Paulo
era mais tarde; em Paris anoitecera;
na Ásia o sono era seda)
Na quebrada
do rio Yuro
a claridade da hora
mostrava seu fundo escuro:
as águas limpas batiam
sem passado e sem futuro.
Estalo de mato, pio
de ave, brisa
nas folhas
era silêncio o barulho
a paisagem
(que se move)
está imóvel, se move
dentro de si
(igual que uma máquina de lavar
lavando
Sob o céu boliviano, a paisagem
com suas polias e correntes
de ar)
Na quebrada do Yuro
não era hora nenhuma
só pedras plantas e águas
II
Não era hora nenhuma
até que um tiro
explode em pássaros
e animais
até que passos
vozes na água rosto nas folhas
peito ofegando
a clorofila
penetra o sangue humano
e a história
se move
a paisagem
como um trem
começa a andar
Na quebrada do Yuro eram 13,30 horas.
III
Ernesto Che Guevara
teu fim está perto
não basta estar certo
pra vencer a batalha
Ernesto Che Guevara
entrega-te à prisão
não basta ter razão
pra não morrer de bala
Ernesto Che Guevara
não estejas iludido
a bala entra em teu corpo
como em qualquer bandido
Ernesto Che Guevara
por que lutas ainda?
a batalha está finda
antes que o dia acabe
Ernesto Che Guevara
é chegada a tua hora
e o povo ignora
se por ele lutavas
IV
Correm as águas do Yuro, o tiroteio agora
é mais intenso, o inimigo avança
e fecha o cerco.
Os guerrilheiros
em grupos pequenos divididos
agüentam
a luta, protegem a retirada
dos companheiros feridos.
No alto,
grandes massas de nuvens se deslocam lentamente
sobrevoando países
em direção ao Pacífico, de cabeleira azul.
Uma greve em Santiago. Chove
na Jamaica. Em Buenos Aires há sol
nas alamedas arborizadas, um general maquina um golpe.
Uma família festeja bodas de prata num trem que se aproxima
de Montevidéu. À beira da estrada
muge um boi da Swift. A Bolsa
no Rio fecha em alta
ou baixa.
Inti Peredo, Benigno, Urbano, Eustáquio, Ñato
castigam o avanço
dos rangers
Urbano tomba,
Eustáquio,
Che Guevara sustenta
o fogo, uma rajada o atinge, atira ainda, solve-se-lhe
o joelho, no espanto
os companheiros voltam
para apanhá-lo. É tarde. Fogem.
A noite veloz se fecha sobre o rosto dos mortos.
V
Não está morto, só ferido.
Num helicóptero ianque
é levado para Higuera
onde a morte o espera
Não morrerá das feridas
ganhas no combate
mas de mão assassina
que o abate
Não morrerá das feridas
ganhas a céu aberto
mas de um golpe escondido
ao nascer do dia
Assim o levam pra morte
(sujo de terra e de sangue)
subjugado no bojo
de um helicóptero ianque
É o seu último vôo
sobre a América Latina
sob o fulgor das estrelas
que nada sabem dos homens
que nada sabem do sonho,
da esperança, da alegria,
da luta surda do homem
pela flor de cada dia
É o seu último vôo
sobre a choupana de homens
que não sabem o que se passa
naquela noite de outubro
quem passa sobre o seu teto
dentro daquele barulho
quem é levado pra morte
naquela noite noturna
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VIII
A vida muda como a cor dos frutos
lentamente
e para sempre
A vida muda como a flor em fruto
velozmente
A vida muda como a água em folhas
o sonho em luz elétrica
a rosa desembrulha do carbono
o pássaro, da boca
mas
quando for tempo
E é tempo todo tempo
mas
não basta um século para fazer a pétala
que um só minuto faz
ou não
mas
a vida muda
a vida muda o morto em multidão.